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Ensaios sobre correr

Vários pensamentos corridos sobre um tema corrente (ba-dum-tisss)

Não é segredo para ninguém me conhece pessoalmente que eventualmente eu tomei vergonha na cara e fiz tudo que precisava para emagrecer, e não é segredo mesmo já que não canso de contar em detalhes toda a história mais de uma vez, e isso se converteu em um processo que durou aproximadamente um ano. Aproximadamente porque dependendo do padrão usado eu já estaria “magro” antes do fim da minha contagem, oficialmente eu conto do momento em que comecei a tomar ações práticas até o momento em que cheguei no meu peso mínimo, onde fiquei por um bom tempo até a pandemia chegar (pra que comer morcego, gente?).

O fato é que nesse processo, além de fazer os tais dos “sacrifícios” (que você se acostuma surpreendentemente fácil depois que começa) de dieta e exercícios, eu acabei descobrindo uma coisa que gosto muito de fazer: Correr.


Claro que por “correr” no começo, quando você é gordo e sedentário, significa fazer caminhadas. E depois andar rápido. E depois andar mais rápido cada vez por mais tempo contínuo. Até o momento em que você já não está mais gordo e está de fato correndo por longas distancias e períodos. Existe sim um pequeno Paradoxo Tostines envolvido, correr ajuda a emagrecer, emagrecer facilita em correr. Mas como os exercícios anaeróbicos (olha como eu sou culto, eu ia chamar de “musculação”, mas lembrei do nome kek) e a dieta são fatores até mais importantes me dou o direito de abstrair essa parte da equação.


Mas admito, correr não é para todo mundo. Se você não gosta de fazer caminhadas talvez não tenha como gostar de correr mesmo, já que correr é basicamente “Andar 2.0” ou “Andar with steroids”. Quando eu digo correr, entenda sempre fazer isso em local aberto, é corrida ao ar livre mesmo (ou como o pessoal chique chama, “outdoor run”), em diferentes geografias e ambientes e por vezes tendo que desviar de transeuntes passeando como se todo o espaço público fosse feito pra eles, acontece.

Eu sempre gostei de caminhar pelas ruas quase que sem rumo, faço esse programa de índio sozinho até hoje. Desde que me mudei para Porto Alegre eu já mapeei uma boa parte de toda a zona norte apenas caminhando pra conhecer as ruas. Correr é fazer isso ao extremo e sem prestar atenção em 95% do que acontece ao redor.

O nome dela é Sena, sugestivo?
O nome dela é Sena, sugestivo?

Correr em esteira ergométrica é algo para um público ainda menor. Passar 30min-1h correndo sem propósito e sem sair do lugar, cercado por outras pessoas fazendo o mesmo e com no máximo uma TV sintonizada no pior canal possível (obrigado, Smartfit), que vai inevitavelmente estar passando o pior programa da grade (sério, muito obrigado, smartfit), é para poucos. Eu sempre fiz religiosamente meus 30 minutos de esteira pela obrigação e por saber que ele me ajudaria a correr melhor na rua, condicionamento não surge do nada. Mas minha única diversão real ali era competir com os outros pobres coitados correndo. Obviamente eles não sabem que estão participando de uma competição e nunca vão saber. Quer dizer, alguns até devem perceber, mas a verdade é que azar o deles ¯_(ツ)_/¯

Isso começou como algo natural e que eu fazia somente com as pessoas que insistiam em começar a correr nas esteiras diretamente ao meu lado. Se a pessoa estava na velocidade 9 do aparelho, pff, eu já começava no 10 (aquecimento é pra fracos e pessoas que querem manter os joelhos funcionais depois dos 60), se a pessoa estava se esforçando na velocidade 12 era digno de um silencioso not_bad_face.jpeg e depois me aturar correndo à 13 ou 14. Nas poucas vezes que as pessoas corriam na mesma velocidade do meu limite (para informação: velocidade 14 nas esteiras mais comuns na smartfit, mas varia conforme o modelo) eu transformava em uma batalha de resistência e me forçava a ganhar, eu já fiz 1 hora de esteira em dias que era pra fazer 30 minutos por pura teimosia (lembre-se: a pessoa não sabe que está formalmente numa competição comigo).

Obviamente em 1 ano acariciando meu ego às custas de inocentes frequentadores de academia, eu encontrei gente que conseguia correr mais rápido do que meu limite. Nesses casos eu fingia que não me importava e seguia meu ritmo normal. É importante saber perder.


Talvez a mudança no metabolismo tenha me deixado mais competitivo.

Fato é que esse comportamento de criar competições com pessoas que não fazem ideia de que estão em uma competição é meu comportamento padrão quando estou correndo, desde a época em que eu corria no boulevard do porto do Rio até agora que corro em um dos muitos parques de rua de PoA, o pior que pode me acontecer é não ter ninguém próximo para que eu possa criar metas de ultrapassagem.

No Rio, o porto era um local bem mais vazio e eu fazia minhas corridas durante a noite. Nem tanto um problema já que eu estava no começo e não tinha muita condição de competir contra pessoas, mas eu já criava metas de tempo em pontos de referência, como os relógios de rua e posições especificas. Hoje minhas metas são ultrapassar no menor tempo possível todas as pessoas que aparecem correndo na minha frente, independente da distância em que elas se encontram, mesmo que estejam em áreas desfavoráveis (aprox. 1/3 do trajeto é subindo ladeira, ou como chamam aqui, lomba)

Pra quê você vai querer tentar entender?
Pra quê você vai querer tentar entender?

Mas uma coisa que eu nunca me esqueço foi minha saga para superar o “tio do braço engessado” ainda no Rio. Meu trajeto era fixo, Aquario do Rio <-> Praça das Barcas, basicamente todo o boulevard (joga no maps), eu corria próximo das 21h, estava bem no começo e nem conseguia correr o percurso inteiro, eram pequenas sessões de corrida com momentos de descanso.

Um belo dia eu estava praticamente na metade da primeira perna (o trajeto era ida e volta, então fechando ¼ do total), o que me deixava próximo da entrada para a volta em torno do Museu do Amanhã (sério, gMaps), quando um senhor de meia idade, careca e, mais debochadamente ainda, com o braço engessado, passou correndo ao meu lado. E depois passou novamente já voltando. Enquanto eu ainda estava na primeira etapa.

Isso me afetou seriamente, daquele dia em diante eu passei a manter o CobSentido monitorando a presença desse senhor durante minhas corridas, algo mais complicado de fazer quando não se está mais com o braço engessado, e sempre tentando evitar tomar uma volta dele.

Então fazemos o “fast forward’ alguns bons meses para quando eu já estava correndo não só cada uma das pernas do trajeto (o ponto de retorno era, obviamente, na altura da academia e eu fazia a ida como aquecimento), mas já era capaz de ir e voltar correndo sem necessidade de nenhuma pausa, quando eu finalmente consigo dar uma volta nesse senhor pela primeira vez. Das pequenas vitórias.


Ainda falando de metabolismo, e voltando um pouco na questão de gostar ou não de andar e correr. Essa tal de endorfina deve realmente viciar. Esse é um pensamento que constantemente tenho quando estou subindo a Goethe (a tal da ladeira no parque onde corro) na penúltima ou última volta. Culpar um suposto vício é o que tira o peso da minha consciência e me permite concentrar todo meu ódio e transforma-lo em força para subir mais uma vez aquela rua me mantendo na tênue linha entre tentar me matar sufocado de tanto esforço e falhar nessa tentativa.

Não fosse tão boa a sensação de ter sobrevivido ao final eu certamente nunca voltaria a correr do jeito que corro, muito menos me dar o trabalho de cronometrar o tempo que levei para fazer meu trajeto já pensando em melhorar este tempo na próxima vez.

Agora se me dão licença, preso dormir cedo pois tenho que ir correr amanhã de manhã ;)

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